Juliana: Riqueza nem sempre é uma bênção, já dizia o famoso psiquiatra suíço Carl Jung, que antes disse que a riqueza pode ser uma maldição, mas será?

Narrador: A partir de agora, Papo de Família Empresária, para quem é fundador ou fundadora, para quem é herdeiro ou sucessor, para quem faz parte de uma família empresária, ou para quem simplesmente ama este tema, com Juliana Gonçalves e Martin Salas.

Juliana: Olá, pra todo mundo, nossos ouvintes. Estamos de volta nesse nosso segundo episódio do ano de 2021. Eu sou a Juliana Gonçalves, jornalista e consultora de empresas familiares, e comigo meu colega Martin Salas.

Martin: Olá, Juliana, tudo bem? Depois de uma semana no Brasil, agora estou de volta em Miami e eu também, como sabem, sou um consultor de empresas familiares, escritor e consultor de transformação organizacional.

Juliana: Muito bem. Então, esse tema de hoje é outro tema delicado, né, Martin? Imagina, falar de riqueza. Há quem concorde com o psiquiatra suíço que a riqueza pode ser uma maldição, mas, bom, eu acho que não devemos necessariamente defini-la dessa forma porque, primeiro, a gente tem que entender o que que é riqueza, decifrá-la.

E pra isso nós temos hoje um convidado super especial, um convidado bem rico, rico em conhecimento, rico em simpatia, rico em amizade, com a gente Fabiano Calil, consultor e idealizador da Escola Clínica Fabiano Calil, que tem como um dos grandes papéis ajudar as pessoas a entender os números por detrás dos seres humanos. Não é isso, Fabiano? Seja muito bem vindo ao nosso Papo de Família Empresária.

Fabiano: É isso aí, obrigado Juliana pelo convite. Obrigado, Martin, é um percurso de ajudar de fato a desvendar o que que é esse meio, que na economia o dinheiro é um meio, mas que de fato ela tem por trás o ser humano, como um ser integral, dentro de um ambiente que é nosso planeta, de alguma maneira.

Como é que a gente pode lidar com tudo o que o dinheiro pode representar como sintoma, já que você citou aqui o Jung, sintoma daquilo que nós seres humanos fazemos com as nossas emoções, nossos desejos, as nossas vontades, e imagino que seja um pouco por aí a nossa caminhada nessa nossa jornada hoje.

Martin: Fabiano, obrigado por estar conosco neste papo, compartilhando sua experiência de mais de vinte anos com o tema da riqueza e do dinheiro. Nos conte um pouquinho sobre sua trajetória e como chegou profissionalmente a este tema.

Fabiano: Claro, obrigado. Bom, eu começo lá na Economia, faço uma faculdade mais humanista. Eu gosto de contar isso porque Matemática Financeira era uma matéria opcional, para a gente entender o que que é o humanista que eu quero trazer.

E eu sempre jurei que nunca ia trabalhar num banco. Foi meu primeiro trabalho, foi dentro de uma instituição financeira, onde eu aprendi o que que era o lado, de fato, financeiro e econômico de uma instituição financeira, me apaixono pelo planejamento financeiro familiar no meio dessa trajetória; conheci ele fora do Brasil, e eu faço uma migração querendo trazer para instituição financeira. Não consegui naquele momento —passava por uma fusão— e eu vou para o planejamento financeiro. Então começo a atender famílias. Eu saio do mercado financeiro e monto uma consultoria, essa consultoria que existe até hoje para atender famílias na questão de como lidar, como planejar —no começo é um pouco mais racional— planejar ou lidar com as suas finanças e patrimônio. E para minha surpresa logo no começo, Martin, essas famílias não faziam nada com os planejamentos financeiros e isso me intrigava muito. E eu descobri porque que eles não faziam isso por meio da psicologia econômica e da psicanálise — psicanálise é a minha segunda formação. Eu fui estudando, então, mediação dos conflitos familiares, me aprofundei no transgeracional — como é que a gente transfere patrimônio, poder e recursos entre gerações — para que então a gente pudesse, e é isso que eu faço hoje, atendo casos mais complexos, participo de alguns conselhos de família, dou aulas, ministro workshop para famílias, ajudando elas a lidar com isso que é a formação de patrimônio de uma geração, a transmissão desses valores, desse legado para as próximas, e como é que a gente consegue fazer com que todos, desse sistema tão familiar, possam lidar com isso que a gente chama de patrimônio, de riqueza, de wellfare, como é que a gente pode atuar com isso, essa foi minha trajetória até então.

Juliana: Uma das primeiras coisas que a gente pede ao nosso entrevistado é contar essa trajetória, e eu fiz questão que você fizesse isso para os nossos ouvintes entenderem exatamente porque quando a gente tá falando de riqueza, a gente não está falando só dos números, porque tem todo um um psique do ser humano, como você define aí por trás dos números, ou antes dos números, que justifica toda a conversa que nós vamos ter daqui para frente. Por isso que eu pedi que você se apresentasse para as pessoas entenderem quem é o Fabiano para estar falando o que nós vamos conversar aqui, agora.

Muito obrigada, e eu acho que é importante a gente começar entendendo o que que é riqueza. Eu acho que… Eu fui pesquisar antes, para a gente poder preparar o roteiro e as definições são claras, que riqueza é ser abundante em bens materiais, é você ter o poder aquisitivo, como dinheiro, propriedades, imóveis; é patrimônio financeiro. Ou então, muitas vezes, também pode ser entendido como ter acesso aos bens de serviços básicos, como saúde, educação, moradia. Então isso é uma compreensão, eu diria, que racional do dinheiro, que é você ter uma boa situação financeira para sua vida, vamos dizer assim. Mas tem um outro lado, também, que as pessoas questionam, que está relacionada à prosperidade, que é de alguma forma você ter a qualidade de vida, uma satisfação com sua vida, uma alegria, uma felicidade, que está para além da riqueza financeira que você pode ter. Não é isso?

Fabiano: Pois é. Aqui vale a gente separar algumas coisas, né, Juliana, interessantes. Uma delas é a gente pensar o que é riqueza do ponto de vista patrimonial. Mas quando a gente pergunta para famílias empreendedoras, ou quando a gente pergunta para famílias de modo geral, o que significa riqueza, para nossa curiosidade, aparece tranquilidade, paz, harmonia, comunicação, e a gente pode preencher umas duas folhas de flip chart. Geralmente, num encontro como esses não aparece nenhum patrimônio físico desses que a gente comentou até agora no financeiro, e aqui nos chama a atenção porque nos dias atuais, olhando para a data que nós estamos agora, riqueza nos dias atuais significa saúde, estarmos todos bem, em harmonia com os familiares,…

Juliana: Vacina, ha, ha, ha.

Fabiano: … termos um trabalho. Então olha como mudou o conceito de riqueza, é claro que a gente passou por uma situação econômica delicada no ano que passou, mas a gente olha para agora e as pessoas descrevem riqueza dessa maneira.

E aqui eu trago um segundo ponto que é a necessidade, que você trouxe, que eu queria trazer, uma outra fala, que é a dignidade, e a outra que é do meu desejo, das minhas vontades. Então a gente entende que a riqueza, numa primeira questão, seria eu poder atender as minhas necessidades básicas, aquilo de poder… como é que eu posso me comunicar e cuidar da minha saúde se eu não tenho o básico como saneamento, ou alimento, ou alguma coisa, né, moradia.?

Ao mesmo tempo, a gente pode entender, quando a gente sai um pouco dessa cena, quando eu começo a poder atender os meus desejos e as minhas vontades, aí eu podia começar a falar dessa nuance que você trouxe um pouco, da prosperidade, desse excedente daquilo que então já não é mais a minha necessidade, eu já estou podendo atender outras coisas. Mas de modo geral, eu queria dizer que riqueza, ela começa com um fator de atender necessidades humanas básicas e ela depois culmina, sim, com a questão econômica-financeira.

Martin: E existe, em grau, Fabiano, na parte da psicologia, essa pirâmide que as pessoas têm desejo, que vai daquelas necessárias básicas até um reconhecimento social, etc. Você acha que normalmente se deseja certamente o que não tem, não? Então isso muda de alguma maneira o que faz feliz. Em espanhol temos uma frase que diz: “O dinheiro não é a felicidade, mas é muito perto”. Eu não sei, também, se acontece isso aqui. Tão…

Fabiano: Acontece, sim, Martin. Tem até algumas pesquisas de comportamento que gostam de fazer um gráfico que coloca como é que meu índice de felicidade aumenta de acordo com a minha renda, e esse número não mudou muito nos últimos anos, mas a gente tem um número que é aproximadamente depois de onze, a partir de onze mil dólares, de receita média mensal, esse índice de felicidade já não acompanha o crescimento de renda, ou seja, cresce a minha renda, mas minha felicidade não cresce na mesma proporção. Por que isso? É como você falou da pirâmide. O meu básico já está atendido, então eu já tenho um carro para me locomover, o outro carro, ele pode me dar algo adicional, um conforto melhor, mas o ir e vir que seria talvez o principal do carro, me proteger, me preservar de uma chuva, ele já faz, então o adicional, ele, sim, me dá mais felicidade, mas o acréscimo de valor, ele não acresce também, no mesma proporção, a minha questão da felicidade.

Então, é verdade que o dinheiro ele trás, e isso ele é hoje nosso, de novo, ele é um meio na sociedade que a gente vive, para que eu possa ter as minhas necessidades básicas supridas, mas até um determinado limite. E aqui eu queria inaugurar uma questão acho que importante. Quem consegue abrir mão? E a gente está hoje falando do simplificar a vida, a gente está então falando é do minimalismo. E eu gosto sempre de trazer essa cena aqui. Quem consegue abrir mão de um carro para andar de patinete? Que já teve um carro! De uma pessoa que nunca teve uma moto, para ela não ter uma moto? Quem nunca teve um carro, não ter um carro? Quem nunca teve uma casa própria, de abrir mão do imóvel, morar em menos metros quadrados? Então, também percebo que nessa questão que você fala da felicidade, a gente tem uma aqui para eu desapegar, que é o termo que se usa nesses diálogos mais espiritualizados, espiritualistas, desculpa, é que então ele coloca, aqui, para eu abrir mão, já tenho que ter me apegado de alguma maneira, e aí para mim é mais fácil abrir mão de alguma coisa que eu já experimentei.

Juliana: Bom, e eu quero, agora, extrapolar um pouco isso. Nós falamos de nossas necessidades, de ter um pouco mais, manter o índice de felicidade. Agora, quando a gente cresce um pouco esse patrimônio e a gente chega num nível de riqueza, sem querer definir valores dizendo o que que é uma riqueza, mas a gente convive com muitas famílias e muitas vezes a gente depara com essa realidade, quando ser rico, ter patrimônio, é motivo de vergonha, que é muito nossa proposta, da nossa discussão, hoje. Eu tenho vergonha de ser rico. Então, para a gente entrar nesse tema polêmico e delicado, eu quero começar com o nosso primeiro caso, que eu acho que vai ter assunto suficiente, pode ser?

Primeiro caso:

Narrador: Maria Antônia tem cinquenta e dois anos e é acionista de uma empresa fundada pelo seu pai, casada também com um empresário de sucesso, e mãe de três filhas. Maria Antônia optou também por se dedicar à casa, adora viajar e receber amigos e clientes do marido em casa, mas confessa que tira todas as etiquetas de marcas de suas roupas, os rótulos com preços dos produtos que compra, e esconde as sacolas de compras quando chega em casa. Maria Antonia vive num constante conflito com a sua riqueza financeira.

Juliana: Uau, hem! Complicado uma situação dessas, você viver dessa forma.

Fabiano: E é tão genial, né? Eu queria é ampliar essa questão que a gente está falando, de uma questão aqui, do feminino, que eu queria trazer, que a gente coloca a questão da vergonha, de um certo modo de ter, de ser quem é, de estar nessa condição, mas lembra que você trouxe um traço nesse caso de que então ela cuida…

Juliana: Boa observação!

Fabiano: E eu queria trazer primeiro essa primeira cena, que é essa cena que a gente fala que então essa pessoa, — entre aspas, do lar — ela não trabalha, como se ela nada fizesse, como se não fosse ela fazer as compras, cuidar dos filhos, enfim, a gente não dá valor.

Aqui, eu queria trazer um aspecto jurídico, porque é muito usual quando a gente fala de riqueza, que é: “Ele (nesse caso) que faz dinheiro e eu só uso, usufruo, como se eu não direito tivesse, e ao achar que eu não tenho direito, isso nutre muito a minha vergonha e meu constrangimento de usar um dinheiro que aparentemente não é meu.”

E eu gosto de fazer essa pergunta invertida, que ela é muito bacana. Substitua Maria Antônia por outras pessoas. Pode ser motorista, cozinheira, a pessoa que compra, que faz a gestão, que educa, que tal, e me diga: Quanto vale Maria Antônia no seu fazer? Segundo: qual o custo de oportunidade? Maria Antônia, que tinha uma carreira promissora e que em algum momento abriu mão, e a gente nunca mais precificou.

E a terceira é quando os filhos saem de casa como é que eu vou reinserir Maria Antônia na sociedade, não na sociedade do consumo, ou na sociedade do prazer. Estou estereotipando, aqui, para marcar para o nosso ouvinte. Essa, então, que recebe, que celebra com os amigos. Mas e no dia a dia? Quem que é a Maria Antonia se não é o lugar que nos dignifica de alguma maneira que é o trabalho, de poder saber fazer, de ser parte de quem faz a a riqueza, ou de quem gerencia, para eu me sentir, então: “Por que é que eu usufruo? Porque eu faço parte disso na gestão, ou na construção, e que daí me afastaria um tanto dessa questão da vergonha.”

Para só dar um traço, aqui, de que muitas vezes essa vergonha, Juliana, ela vem por eu não me sentir apropriada do fazer ou de ser detentora de alguma coisa, que depois vai relacionar também, que é um outro tema, para a gente falar dos herdeiros.

Juliana: Eu acho que deve piorar ainda o caso, quando esse patrimônio não é gerado pela sua geração, no caso dela, talvez pelo marido, mas quando esse patrimônio é herança. É como se eu não tivesse nenhum direito de receber, eu sou mais julgada pelo outro porque esse patrimônio não foi feito por você, você recebeu dos seus antepassados. Aí eu acho que essa vergonha, esse peso, ainda é maior.

Martin: Esse vai ser o meu ponto, exatamente — herdeiros. E que é que você pensa, que você acha, dessa circunstancia, “herdeiros”? Agora, não é que todos herdeiros pensam o mesmo, não acontece com todos, mas acontece. E quais, hummm… essa situação psicológica, porque aconteceria, né? Justo, muito o que você acabou de falar, Fabiano.

Fabiano: Claro, e a gente tem uma questão cultural muito bacana nessa pergunta, Martin, que, quando eu falo do herdeiro, eu queria separar aqui o herdeiro do sucessor. Então, o sucessor é aquele que de alguma maneira apresenta seus talentos, toma um risco junto, empreende junto, ainda que ele seja uma sombra de quem foi o o construtor do patrimônio, ele está lá junto na lida, e tem uma sensação diferente. Aqui a gente está falando do herdeiro de fato, que herdou uma empresa pronta, que herdou um patrimônio já construído, e ele tem mais essa síndrome do herdeiro que a gente coloca, né,? Que ela é muito parecida com os pais e os filhos herdeiros.

Os pais têm os sentimentos muito parecidos com os que os próprios filhos têm. Então os pais acham que ele pode não ser capaz, que ele tem que tomar cuidado com os relacionamentos afetivos, que as pessoas podem estar lá só por interesse, e o herdeiro —nada mais é do que de algum modo um espelho também desses pais —, ele acha que ele não é capaz de gerar, ele acha que ele é dependente econômico, ele acha que as pessoas se aproximam dele por interesse, e ele é uma pessoa que vive com medo e com vergonha ao mesmo tempo.

Mas eu queria trazer o medo em primeiro lugar, que é esse medo que traz uma desconfiança de si próprio, que é uma baixa da autoestima, inclusive, de que ele entende, então, que se não fossem os pais, esse patrimônio ele não existiria.

Eu faço uma analogia aqui, que para mim foi muito interessante. Uma certa época, a gente estudou os herdeiros e os beneficiários do Bolsa-Família, dos benefícios de família das regiões mais pobres, das famílias mais pobres, e o comportamento era muito parecido…

Juliana: em ambos extremos.

Fabiano: … porque o lugar da fantasia do dependente é a mesma. Então eu escolho ficar quietinho para não perder a mesada, eu escolho não trabalhar para não perder o benefício, eu não caso para não perder o benefício, eu evito casar para não começar a ameaçar falar: “Ah, essa sua companheira, ou esse seu companheira, só está interessado em você”. Então eles vão deixando de viver, quase ficando no útero, vou brincar aqui, com medo de crescerem, de poderem adolescer, de poderem brigar e romper com seus pais porque esse movimento, de serem si próprios, de serem eles mesmos, poderia romper com alguma coisa que é quentinha, que é calorosa, mas que é morna.

Claro que eu estou estereotipando o herdeiro aqui, e com uma grande dor do herdeiro, dessa desconfiança que, quando ele dá a volta por cima, e um dos caminhos é a comunicação onde ele possa dizer: “Sim, sou seu filho, sim, sua filha. Muita gratidão por ser seu herdeiro, mas eu quero ser eu, eu quero ser músico, eu quero respeitar a minha vontade”. Isso vale para o herdeiro e vale para o sucessor, mas para isso a grande chave que eu deixo para os pais é : “Lembre —, e aqui vale não só para os pais muito detentores, mas para todos os pais —, que os filhos quando começam a ir para o mundo, eles querem ter o mesmo estilo de vida daquele pai”. E como é que a gente ajuda esse jovem a ter o estilo de vida que ele é capaz de distinguir? “Olha, esse patrimônio é meu, esse estilo de vida é meu. Se você quiser aqui você vai ter que embarcar nisso como meu herdeiro, mas você pode ser músico, mas você banca a vida de um músico, que não é a nossa?”.

E aqui, como é que eu começo a fazer distinção dentro da mesma família, que aqui também tem um pouco dessa ilusão do controle de que esse patrimônio vai cuidar de todo mundo, do mesmo jeito, da mesma condição para todo mundo, e é como eu gosto de dizer assim: “Deixa eles experimentar a vida como ela é.“, que aqui é uma uma seara interessante para a gente caminhar, de que a gente não se confunda com aquilo de que, “Bom, sem um motorista, sem um carro blindado, sem um segurança, eu não existo.”. Então ele consegue ser outra coisa. E é claro que aqui a gente tem nuances muito mais delicadas do que eu estou trazendo numa fala breve, mas o herdeiro, ele tem muito esse sintoma, de algum modo, mais até do que a vergonha só, mas desta desconfiança de nunca saber se as pessoas estão com ela porque gostam dela, ou pelo sobrenome, pelo patrimônio.

Martin: E sobre esse ponto, porque, veja bem, que em nosso trabalho, certamente em muitos projetos, eu vi muito do que você acabou de falar, de que quando você tem certa riqueza e inconscientemente acha que as pessoas vão se aproximar só porque você é rico, ou porque quer tirar parte da riqueza, ou tomar vantagem disso. E como combater essa circunstância? Tem que ver também, algumas vezes, com autoestima, algumas vezes há um (…) que quer tomar vantagem, mas como, quais situações que você viu e como lidar com isso, como família, como pai, como filho, nessa circunstância, porque acontece muito, né?

Fabiano: Muito. Eu vou separar dois casos mais estereotipados, aqui. Juliana, você quer fazer uma pergunta?

Juliana: Não, não. Eu iria fazer um comentário. A gente vive numa bolha. É um sentimento de um isolamento total.

Fabiano: É. Eu vou trazer esses dois casos que eu acho interessantes. Um, eu vou pensar num jogador de futebol, esportista, alguém que vende uma condição socioeconômica muito distinta, de algum modo, e que ele começa então a fazer dinheiro muito rápido, e o meio que ele começa a viver não reconhece, não é o meio dele. Então, aqui ele tem uma briga, nesse sentido, de quando ele faz esse dinheiro, de algum modo. É que ele se sente então não parte daquilo ali e, não à toa, é um movimento natural como a do jogador de loteria que acaba com aquele patrimônio para voltar a se reconhecer dentro do seu meio, poder ser reconhecido, e aí é consciente que ele faz isso muitas vezes.

Agora, eu trago um herdeiro, em que a família é bem resolvida do ponto de vista econômico, ou seja, ela sabe muito bem o patrimônio que ela tem, elas tem muita clareza de como chegaram lá, mas elas não se iludem com o patrimônio, elas não se misturam com o patrimônio. Os filhos geralmente têm muito pouco essa dor, que eu trouxe como jogador de futebol, de uma dor de que eu não reconheço quem eu sou, o lugar que eu estou, …

Juliana: Não pertenço.

Fabiano: … de pertencimento, porque a família continua com seus valores, com seus princípios, e acho que esse é um ponto muito importante, quando as pessoas começam a se confundir com essa riqueza / consumo / status, que é muito diferente do que a minha família é a maior produtora disso, ou do que ela faz, e eu tenho orgulho disso, e eu sei o que é o valor de fazer isso, eu acompanho essa história.

Então, eu acho que tem muito a ver com a forma que eu transmito esse legado, que é diferente da forma que eu transmito dinheiro e patrimônio, Martin. Quando eu transmito só dinheiro e patrimônio, e eu falo que então você “não precisa trabalhar” porque nós já trabalhamos por você, quando eu digo que agora vai ter que ser assim, essa é a condição, e eu só tenho a opção de aceitar ser herdeiro, aí eu tenho esse risco, e como é que eu posso me proteger disso? Desde o caminho mais usual que é um contrato de união que me proteja, que tenha regimes de união, de namoro, já pré-definidos, e aí eu acabo quase sempre — né, Juliana? — porque aí eu posso ser eu dentro daquele ambiente que me colocam, mas ele ainda é um tanto aprisionante, e a gente começa a ver iniciativas desses jovens, né, dessas gerações, terceira, quarta, quinta gerações, querendo atuar de uma outra forma, empreendendo nos projetos sociais e nas filantropias, mas podendo existir, levando esse legado, ou mesmo esse legado patrimonial de uma outra maneira para o mundo, e aí ele pode ser ele usando isso, transformando isso não como uma dependência, mas eu gosto de usar essa palavra, agora, então, transmutando de alguma maneira isso, fazendo um movimento de alquímico, transformando tudo isso que ele teve em outra coisa, diferente daquilo que os pais fizeram, mas sem negar aquilo, sem dizer não, não quero nada que meus pais querem, eu vou romper, vou ser músico e vou viver disso. Não. Eu posso usar tudo aquilo e poder ter música por prazer, …

Juliana: Ter a minha identidade.

Fabiano: … ter a minha identidade e talvez poder usar isso de outro modo.

Juliana: E eu acho que é um ponto fundamental, quando você está falando desse contexto, é porque falar de dinheiro é meio tabu nas famílias. Eu vou falar de sexo, ninguém conversa sobre esse assunto porque é constrangedor para todo mundo, que eu acho que é um caminho de você criar esse ambiente onde os herdeiros consigam desenvolver sua própria identidade é você trazer o tema do dinheiro com naturalidade, desde criança, adolescente, jovem, falar dessa história, falar desse trabalho passado, que esse dinheiro não caiu do céu, não vai cair do céu para eles, nem caiu do céu, que ele foi fruto de muito trabalho, foi fruto de muita dedicação, de muito sacrifício. Quando a gente pega os antepassados que iniciaram essas histórias desses planos empresariais, sempre teve muito sacrifício, então você falar disso, com muita tranquilidade, que faz parte desse legado que você coloca, Fabiano, de você transferir para as novas gerações, que vai se transformar em orgulho, em reconhecimento do que aconteceu no passado, e saber…, e uma tranquilidade para lidar com esse patrimônio, uma tranquilidade você poder usufruir sem culpa, e poder criar um ambiente para a sua própria identidade dentro desse contexto, dessa riqueza, que eu acho que isso é um ponto importante.

Fabiano: E aqui vale… Eu queria separar em três coisas, Juliana. O fundador não tem muito problema com o patrimônio, com lidar com patrimônio, …

Juliana: Não tem. Ele trabalhou, né, Fabiano? Foi o suor dele, então…

Fabiano: … e aqui eu queria separar em três etapas. Então, uma coisa é eu transferir a história como é fazer, que eu vou chamar um pouco de legado. A segunda é transferir os valores da família, como fazemos isso, o que fazemos, como fazemos isso. E a terceira é de fato transferir patrimônio.

Essa dor, ela costuma aparecer na segunda geração, que não foi a fundadora, mas já recebeu uma condição econômica diferente, mas ainda com o veto da primeira geração, que precisava de menos recursos para viver — então a questão do consumo é menos importante do estilo de vida do que o negócio — para eles o negócio é muito mais importante, para a segunda geração já não, e acaba tendo um berço diferente, e a terceira geração é melhor resolvida, curiosamente, do que a segunda, porque a terceira geração já olha isso, consegue enxergar lá o fundador nesse caso que eu tô trazendo, e peço licença aos ouvintes para estereotipar aqui, esse avô fundador, que trabalha de domingo a domingo, e que ele acha que trabalho é mais importante, que ninguém precisa mais do que vinte mil dinheiros para viver, que isso é uma bobagem.

A segunda geração tem muita vontade: “Para que que a gente reinveste tudo, a gente não distribui?”. E a terceira geração, — e vou trazer um feminino aqui — que acaba questionando para que crescer, e o que é que a gente faz para sociedade ao redor, e como é que a gente vai regenerar, e ela traz perguntas incômodas para a segunda geração, que a primeira geração fica curiosa mas não sabe muito bem para que veio, mas eles se conectam, e quem acaba sofrendo um pouco com isso é a segunda geração, que não foi quem fez, não é quem recebeu isso de uma maneira mais pronta, participou de certo modo, mas ainda não é a protagonista detentora, enfim, que gostaria de usufruir melhor daqueles dividendos, daqueles crescimentos, etc e tal. Eu diria que ela é quem tem esse sofrimento maior com o dinheiro. Mas eu queria separar a história dos valores da questão de fato de eu transferir dinheiro e patrimônio quando eu faço só a terceira parte é que a gente tem problemas, usualmente.

Juliana: Excelente! Eu acho que eu vou passar para o nosso segundo caso, pode ser? Para a gente continuar essa conversa e trazer agora ela para as crianças.

Segundo caso

Narrador: Carlos Augusto, fundador de uma concessionária de carros, conta que o filho pediu para levá-lo na escola de táxi, e não mais com o motorista. Em casa, ele pede para brincar com a bicicleta do motorista.

Juliana: Aí eu te pergunto, Fabiano, crianças conseguem ter consciência para poder manifestar essa vergonha da situação financeira, do padrão de vida que eles têm?

Fabiano: Sim. Crianças são muito perversas, inclusive. É só a gente olhar as brincadeiras de criança quando então a escola, o ambiente que ele frequenta, social, club, sabe que ele é o filho do seu fulano, a filha do seu cicrano, etc e tal. E sabe do sobrenome. Isso pode virar bulling, sim, lá dentro, e aí eu só queria dizer que isso vem de fora, muitas vezes. Então não é que ele tem vergonha por princípio de ter vergonha. A família pode estar muito bem resolvida com isso, mas podem, então, dizer “Ah, você é o filho do fulano, você é o filho do cicrano, você é um neto de …, e aí eles acabam, sim, tendo muita vergonha disso porque isso atrapalha o convívio social das crianças.

Então, eu queria trazer que a gente tem duas nuances: a primeira deles terem vergonha de serem quem são porque aí: “O que é que significa eu ser neta do meu avô?”, e às vezes esses entendimentos são do que estão falando, mas ela sabe que é por isso que ela tem que chegar com segurança na escola, que é por isso que ela tem que cuidar, tal.., que ela nunca pode estar sozinha, e às vezes pode ter um cerceamento, — eu estou exagerando aqui o modelo —, que ela não se sente livre, e ao não se sentir livre, ela começa então a se envergonhar, ou então de querer estar em circuitos ali de convívio, ou mais controlados, como você trouxe uma bolha. Ou então que ela pudesse não ter sobrenome, para ela poder então negar um pouco isso, que são movimentos ruins, mas ela está só querendo se proteger,

Juliana: Mas ela quer ser normal, né?

Fabiano: Pois é, né, Freud iria dizer que o normal é perigoso. Para os adultos, sem dúvida, mas para criança é verdade, ela quer ser só mais um, ela quer ser tão criança quanto os outros, e ali ela não pode ser criança como os outros porque colocam esse selo, que uma vez colocado um selo na criança, a gente sabe muito bem disso, não importa qual o sobrenome, você não tira mais aquele selo. Então ela não quer aquela marca, e ainda que fosse uma marca do bem, uma marca de pedigree, uma marca bacana, naquele momento ela acaba se sentindo marcada, ela não quer, e eu diria que o movimento de uma criança muitas vezes é para se defender.

Martin: E Fabiano, a Juliana comentou isso um pouquinho. Algumas famílias, por exemplo, protegem os filhos, os netos, então eles vão a escolas com pessoas que têm o mesmo nível de riqueza, isto, outro, e essas crianças, convertem-se em jovens, por exemplo,que vivem numa bolha, e aí…, mas o mundo…, finalmente vai entrar no mundo real em algum momento. Eu lembro de um caso de uma pessoa multi, multimilionária, que disse que aos treze, catorze anos, teve consciência de que não todos tinham uma casa com uma lagoa dentro da casa, por exemplo, então você que acha? Quando o impacto pode ser melhor, ou menos pior, se você quiser? É educar os meninos, as crianças, no começo, como você falou com seus valores, ou deixar para depois, e entrar no mundo real? Eu antecipo qual é sua resposta, mas quereria escutá-la.

Fabiano : Claro! Eu só queria lembrar que esse mundo que eles vivem, para ele é o mundo real, que a gente pode chamar de uma bolha. Acho que esse é o primeiro que eu queria trazer. Para eles aquilo é o mundo que eles conhecem. Então eu queria trazer talvez alguns relatos de a pessoa falar assim: “Nossa, mas as poltronas desta classe executiva são muito apertadas”. Mas quem olha de fora, e estava caminhando para ir para a econômica, pode ficar incomodado com essa fala, mas se eu sempre estou sempre acostumado a andar na classe econômica, eu estou só comparando, falando de uma coisa diferente da outra, como a gente poderia falar, talvez, da poltrona do cinema é mais gostosa do que a outra. É o ambiente dela, aquilo é normal para ela, como a Juliana trouxe aqui o normal, é o mundo real pra ela. Eu acho que tem alguns modos que a gente pode ajudar então essas crianças. A gente tem histórias, que a gente tem inclusive dos budas que saem do seu castelo, conhecem uma área protegida até então porque ele era um buda, ele era protegido de não conhecer a vida real. E quando ele conhece, aquilo dói muito, e faz com que ele vai arrancando as suas vestes da riqueza, dessa riqueza patrimonial, material, e vai se desvestindo, como se isso fosse necessário para se conectar, e não era disso que a gente falava ali. Protegido das dores do mundo. E eu queria trazer um outro fato mais real, então, que é um jovem que andava sempre de carro blindado, sempre com seguranças, e um dia ele fala para mãe: “Mãe, eu estou indo para a manifestação na grande cidade, na avenida x, e vou com meus amigos de ônibus”. E a gente estava nesse processo, junto com a família, e por sorte essa mãe então me liga e fala assim: “O que é que eu faço?”…

Juliana: Deixa!

Fabiano: E para ele, naquele momento, deixar ir significa exatamente tudo isso que a gente quer dizer para um jovem, que descubra o mundo como ele é. Mas assim… E ela então me perguntou: “Mas não tem risco?”. Falei: “Tem risco, mas a vida, não só a que ele vive e que é a vida real dele, mas esse mundo ali fora, ele é assim, e estamos…“.

Juliana: Viver é um risco!

Fabiano: Exatamente. No Brasil, principalmente, a desigualdade ela é muito grande. Então ele conhecer o mundo lá fora o protege inclusive para estar no mundo aqui dentro, desse dentro real para ele, de dentro e fora ser menos ameaçador, Martin, do que ele achar que ele só pode ficar bem se ele estiver nesse ambiente. Então, é muito libertador para ele; foi muito libertador para a mãe, apesar de muito angustiante, porque então por isso que ele começa a ficar muito perto e a gente tira um pouco dessa ilusão do controle.

Martin: E agora que fala esse exemplo, eu queria saber se você também viu este tipo de cenário, porque estamos falando de vergonha de alguma maneira, não sei se o termo é o correto, vergonha da riqueza. Em inglês é como well guilt, por exemplo, mas os americanos também chegaram, criaram outro termo que é a affluenza, que é quando você é muito rico e vai gerando uma personalidade que acha que você é, em verdade, superior ao resto. É um caso muito, muito conhecido de um menino muito rico que atropelou duas pessoas e o advogado conseguiu liberar com este conceito: que não era que fosse uma pessoa ruim, senão que morava num mundo em que ele realmente pensava que não tinha responsabilidade, que era melhor que todo mundo, e que (…) seguiu porque tinha que ir a uma festa, por exemplo. Então, qual o risco, por exemplo, a melhor não tão no extremo como este, que bate vergonha de ser rico e por outro lado, claro, é melhor pensar que você é superior, que você tem affluenza.

Juliana: Condições especiais. Merece um tratamento diferenciado.

Martin: Isso, exato.

Fabiano: E o grande responsável por uma mudança, aqui, são os pais. Então, como é que os pais tratam a questão do limite, a questão das regras, das leis, da responsabilidade. Então, eu vou trazer alguns, vários exemplos, dos mais banais, assim: se a regra do condomínio de praia, ou de campo, é que não pode crianças dirigirem e aí quando o segurança vem reclamar: “Olha, seu filho estava dirigindo”, como um alerta para o adulto, e o adulto diz: “ Quem que é você para falar isso comigo, que eu sou o fulano de tal?”. Aí eu estou ensinando, algo para esse jovem, muito perigoso.

Mas eu queria trazer um outro caso, que é exatamente no contraponto disso que você coloca, e eu vejo, sim, essas cenas acontecendo. Então, num conselho aqui de família, que ele é aberto para outras famílias aqui no Brasil, que um jovem — eles estão relatando essa cena — de que um jovem atropelou uma pessoa, chegou no conselho contando isso, pedindo apoio, e esse assunto veio ao conselho de família, pedindo apoio para então ser protegido, pois essa era a figura na cabeça dele, como você bem disse. E olha a figura do conselho, a fala do conselho, e a fala ali veio do avô:
“— Nesta família nós assumimos o que fazemos, dentro das regras”
“— Mas você vai deixar eu ser preso?”
“— Se essa é a consequência dos seus atos, sim. Aqui ninguém esconde ninguém”.

É o que eu falo então dos princípios e dos valores. Claro que depois, no percurso, você será auxiliado dentro da regra. Mas não para te colocar fora da regra, porque, se não, o que é que eu ensino? e olha que isso foi um presente assim para todos os outros membros de outros conselhos que ouviam. Aquela família que tinha muito mais patrimônio do que muitas outras famílias que participavam daquela roda, ouvir alguém falar assim, poxa, aqui os princípios e os valores não sobressaem porque tem mais patrimônio, que a gente poderia traduzir em corrupção ou qualquer outra… o poder, do poder, no que isso pode fazer. Então, coloca que somos iguais e quando você faz isso, no fundo, é um alívio para o jovem, que ele sabe que ele é tal qual os outros, como a gente dizer: “Eu também posso andar de ônibus, eu também posso ser — como a Juliana falou —, normal. Eu também posso ser um aluno como outro qualquer, e não só sou o que respondo e recebo e eu escuto, as regras na voz daquele que deveria ser então o pai o avô ou os adultos de plantão ali, que é o nome da lei.

Martin: Uma pergunta mais somente sobre esse tema, porque… O caso é deste menino, que sentia que queria ir no táxi, de táxi, para a escola. Mas, por exemplo, você com a sua experiência, Fabiano, até que ponto o contexto social, o contexto cultural, condiciona as circunstâncias? E vou comentar. Por exemplo, nos Estados Unidos, existe, não vou dizer um culto à riqueza, mas as pessoas admiram os empreendedores que tiveram muito sucesso, então… Okay, todo mundo quer ter mais dinheiro, mas admira esse sucesso. E em algum dos casos na América Latina, seguramente pelas desigualdades, é se existe uma ideia, em algum dos casos, que a gente não admira os ricos, senão que tem inveja. E isso cria uma pressão extra para aqueles que são sucedidos, que deveria ser como em outros lados. Você acha que também existe um pouquinho dessa pressão, que não perdoa nada àqueles que têm sucesso, ou não tem que ver neste caso?

Fabiano: Tem, tem sim, e eu acho que essa questão, de novo, eu acho que vem da construção desses pais. Eles podem valorizar o que eles construíram como empreendimento, ou eles podem, eles podem, valorizar o patrimônio, e aqui acho que é uma diferença importante. Quando os pais valorizam o que eles fazem, os filhos são menos aprisionados nisso que você acabou de dizer. Quando os pais valorizam ou o estilo de vida, ou o patrimônio. Não é isso então? Que o afluente, ele acaba tendo acesso com condições diferentes, aí ele já sofre com a desigualdade. Porque a gente tem que pensar, que de modo geral, quem gera de algum modo riqueza — eu vou colocar de uma outra forma assim — são os empreendedores. Quem é o transformador, no modelo mais clássico da economia, que gera os empregos, que pode recolher os impostos, enfim, são as empresas e os empreendedores. Eles são os grandes alquimistas neste nosso modelo. Então, nesta visão, se eu colocar e valorizar o fazer, a capacidade que nós temos de transformar, a responsabilidade com o entorno: planeta, Terra, Meio Ambiente, social, etc e tal, é isso que eu vou levar para ele. Agora, se eu digo que ele tem um berço esplêndido, que é essa a condição de vida dele, em que ele vai ter uma condição tão diferenciada, aí eu posso aprisioná-lo nisso.

Vou trazer alguns números recentes. No Brasil, trouxe uma pesquisa recente, no Valor Econômico, que famílias que ganham mais do que vinte mil reais bruto de receita representam um por cento da população mais rica. Eu não estou falando de patrimônio, estou falando de renda, antes dos impostos. Logo, um típico empreendedor de uma família empreendedora, a gente pode dizer que ela não consta das estatísticas, claro que poderia ser potencialmente vergonhoso do ponto de vista de dinheiro, do que eu tenho como patrimônio, do que eu gero e recebo como dividendos, é alguma coisa nesse sentido. Agora, se eu olho para o que ele faz, o que ele transforma, a maneira como ele transforma, que ele gera trabalho, que ele gera impostos, — e o que poderia entender aqui com uma distribuição de receita, a geração de pagamento de impostos —, eu poderia dizer ele como muito potente. É um potencial transformador de fazer com que essa sociedade inclusive, já que é detentor, ele representa uma minoria, mas com muita potência de patrimônio, de poder, no bom sentido, que ele pode ser um grande transformador e regenerador. Por isso que eu volto a dizer que…

Então respondendo a sua questão, que eu concordo, eu vejo isso, sim, mas eu vejo que a influência é muito do que os pais dizem: “Olha, você é muito responsável com tudo o que temos. Responsável no sentido de que você deve responsabilidade para a sociedade e para a humanidade”, ou eu posso dizer: “Olha, cuidado que a humanidade, ela é muito perigosa.”. Então, são dois jeitos. Então, é eu ouvi isso numa conversa ontem: “Eu sou a melhor empresa na sociedade, eu sou a melhor empresa para a sociedade.”. Então, quem sou eu empresa, e aí eu estou falando aqui um pouco do legado, como é que eu transfiro essa comunicação para esse jovem, que ele vai se sentir mais aprisionado, amedrontado, ou mais empoderado, responsável, que é o que a gente tenta levar aqui nas consultorias.

Juliana: Mas tem uma coisa legal falando do jovem. Hoje a gente vê uma onda muito grande dos jovens, dos membros, sobretudo da terceira geração, como você mencionou, trazendo esse desejo genuíno do trabalho social, da doação, da contribuição, já que são jovens de uma condição diferenciada, eles se dão legitimamente o direito de fazer algo para fazer uma diferença, sem que isso seja algo que é uma dívida com a sociedade. Não é uma obrigação de ter que, não é uma cobrança, mas é um desejo genuíno de compreender, até para encontrar um propósito na vida, porque o grande problema desses jovens, dessa condição diferenciada social-econômica, é que muitas vezes eles não encontram seu propósito na vida, já que ele não precisam motivação para trabalhar. Não é como nós de pagar as contas no final do mês, muitas vezes eles ficam meio perdidos, difícil se encontrar. E nesse trabalho, esse olhar social, é o caminho para encontrar esse propósito, então é uma forma de você conviver com essa riqueza de uma forma leve, vamos dizer assim Não vou falar que é saudável porque eu também não quero falar aqui de que da outra forma não é saudável, mas é uma forma mais amena de lidar com essa condição diferenciada.

Fabiano: Eu diria que é uma forma dura também, Juliana, porque ele acaba sendo uma forma de encontrar propósito, que ele poderia encontrar na sua própria vocação, ele poderia encontrar na sua carreira, que ele escolheu. E quando ele escolhe o social, é muito desafiador porque ele tem, de novo, nessa grande responsabilidade, potencialidade junto, mas ele tem uma grande responsabilidade. Eu diria que tanto a filantropia, como os trabalhos sociais, eles são uma forma de ele encontrar esse propósito de conectar, não a única, mas uma dessas importantes. Eu estou dizendo isso porque acho que encontrar propósito, para um jovem de terceira, quarta, quinta geração, é fundamental, independente do propósito, se pelo caminho social, ou não, mas acho que a vertente que ele acaba encontrando do social é porque aquilo vai conectando mais com a geração dele, vamos olhar para a geração de quem são os jovens hoje, o que que ele vive, o que que é lixo para eles, o que que para nós foi uma questão de reciclar, para eles não serve mais. Tem que ser regenerar, eu já tenho que ter um movimento maior porque para eles não dá conta. A nossa geração, de alguma maneira, foi a geração que a gente poderia… De novo, peço licença de estereotipar, aqui, menos preocupada com as próximas gerações, e eles já naturalmente estão mais preocupados porque não vai dar conta de reciclar. Eles vão ter que fazer alguma outra coisa nesse sentido, mudar o comportamento de fato, não à toa eles falam de simplificar e tal.

Mas o privilégio que eu diria dessa terceira geração, que é meio hipótese, Juliana, de porque que eles vão por aí, é que eles já tiveram, eles já tiveram o que a segunda geração teve, já tiveram as posses, experimentaram isso, mas eu queria lembrar que isso das posses por si só tem um vazio interno. “O que é o meu para mim, né? O que é que eu faço sozinho na minha cobertura de mil metros quadrados, só eu? Ou só as pessoas interessadas na minha cobertura, no meu…, seja lá o que for, na minha festa.”. E qual a diferença de quando eu coloco essa mesma potência a serviço de diálogo com a sua bandeira, do meio ambiente, da desigualdade, da fome, do que for. E aí, quando eu faço isso, eu sinto que aquilo que eu tenho eu posso usar de uma maneira que me nutre, e eu acho que o grande (…) aqui do propósito é que quando eu sinto aqui então nutrido dentro de mim que, poxa, isso me faz bem, eu uso aquilo que eu tenho com uma potência que me faz bem, e acho que aí ele começa a…

E essa questão que eu queria trazer, do individual. Nós estamos no momento da individuação de cada um, mais olhar para si só, … a gente vem do coletivo para o individual e agora a gente começa do individual para o coletivo, mas isso nasce de dentro necessariamente, e a terceira geração tem o presente de poder deixar isso nascer de dentro, o que para algumas pessoas a gente tem que importar. “Olha, Martin, você precisa ajudar as pessoas.” — mas o Martin fala “— Não, mas eu estou querendo pensar em mim primeiro.”

Como já pensaram nele em primeiro lugar, ele tem a possibilidade e o privilégio de poder pensar para fora, genuinamente, e não porque alguém está mandando ele fazer isso, porque isso nasce dele, ele já recebeu esse indivíduo de fora muito precocemente.

Juliana: Maravilhoso. Nós já estamos aqui com quase 50 minutos, eu queria que a gente passasse no último caso. Acho que a gente já conversou muito, não vai ter tanta coisa diferente para falar, mas eu acho que é um caso muito… porque ele é público, é mundial, e ele é muito interessante.

Terceiro caso

Narrador: Abigail Disney é herdeira e neta do cofundador do Complexo Disney. Hoje, ela é uma documentarista e ativista, e já doou mais de setenta milhões de dólares da fortuna que tem. Declarou recentemente que tem vergonha do sobrenome dela.

Juliana: Então, assim. Tudo que a gente falou até agora, mas eu acho que de um caso, de um exemplo que mexe com todos nós, que mexe com a fantasia de todo mundo, que é a Disney. Então a gente ouvir que a herdeira da Disney tinha vergonha do sobrenome dela é algo que quebra todas as nossas referências internas, de fantasia e de mundo, e fala assim: “Como assim ela tinha vergonha da história do avô, do cofundador?”. Mas é um caso maravilhoso diante de tudo isso que a gente está conversando.

Fabiano: Acho que é lindo. Até para a gente pegar uma cena que eu tenho visto, e eu acho que é um caminho que vai mais na linha que você chamou do ativismo. E aí é uma coisa muito lógica, aqui no Brasil a gente vai reconhecer essa cena que eu vou descrever muito rapidamente.

O fundador-detentor de patrimônio no Brasil, tipicamente, ele é um homem branco, cinquenta a mais, que vive uns dez, quinze anos, a menos do que as mulheres. Isso não é muito diferente do restante do planeta. E a gente começa a ter, então, que quando este homem, que usualmente era casado por um regime x de união, quando ele falece, a sua sócia afetiva tende a ser a herdeira, detentora, mulher. E que nós chamamos isso… Tem um movimento muito grande, dessas mulheres com muitos recursos, que assistiram, empreenderam junto — talvez, na posição, entre aspas, do lar —, mas que acompanharam tudo isso no outro, numa outra perspectiva feminina que é a do cuidar, do preservar, do pensar no outro, que é o papel, não é da mulher, mas é do feminino, e elas começam agora a serem detentoras de um grande patrimônio, de um legado, de uma construção. Muitas vezes recebem isso na forma de ações, ou de dinheiro, ou de patrimônio, enfim. E elas têm um olhar diferente para aquilo que a gente chamou no começo dessa conversa de riqueza.

E eu tenho visto um movimento dessas mulheres dizendo as suas indignações: ”Não pode ter mais fome no mundo, não pode mais ter uma situação dessa”. É quando elas falam, que isso vem muito genuíno, que elas não estão mais preocupadas em crescer a riqueza. E eu escutei uma fala de uma empreendedora em Minas que disse uma cena que me guardou muito e que tem a ver com esse ciclo, que falou assim: “Calil, tem muito dinheiro doente por aí, e a gente não sabe o que fazer com ele.”. O dinheiro doente, que ela dizia, ou dinheiro marcado por sangue, é o dinheiro que ela viu alguém ficar doente e morrer, alguém tentando se abraçar e controlar e cuidar de tudo isso, e ela fala assim: “O que é que a gente vai fazer com esse dinheiro que, entre aspas, não resolveu nada do que eu queria, de manter aquela pessoa do meu lado, talvez?”.

E para elas, o voltar ao negócio para fazer o negócio crescer, que talvez seja uma sede da segunda geração… Que para estas mulheres, olha que interessante, tal qual a terceira geração… Então estou dizendo: as detentoras, mulheres, com essa terceira geração — para mim isso é uma equação muito fácil da gente enxergar —, é que serão as transmutadoras do nosso país,…

Juliana: A engrenagem da sociedade.

Fabiano: … do nosso planeta. Uma questão que quando alguém vier para um conselho de mulheres detentoras e disser: “Olha, nós temos um projeto social para acabar com a fome no mundo. Votem”. Ninguém vai ficar perguntando: “De que jeito? Mas tem certeza? Mas qual retorno?”. Porque o olhar é outro. Então eu vejo uma cena muito próspera nos nossos próximos caminhos de humanidade, porque eu vejo esse dinheiro mudando de mãos, indo para o feminino. Então queria trazer mais essa energia do feminino, que é da mulher em si, e como a próxima geração, que tem natural e genuinamente de dentro esse desejo de que as coisas sejam mais igualitárias no sentido…

Juliana: Sejam diferentes.

Fabiano: Que possa ser o que a gente chamou, um dia, de mais sustentável, mas que seja digno para todos. Que eu acho que esse incômodo de ela poder ser a dona da dívida, uma das sócias, ou herdeiras, e ver que tem gente que não tem nenhuma condição, é isso que dói e que dá vergonha e não o fato do avô. O que dá vergonha não tem nada a ver com a história do avô. O que dá vergonha é eu ser isso, eu ter o privilégio de estar no castelo, entre aspas, com as pessoas desse outro lado. É isso que incomoda e é essa energia que eu vejo tomando um rumo muito bacana, e vejo muitas iniciativas muito legais. Sou muito otimista com o que a gente tem por vir.

Juliana: Maravilhoso. Eu acho que com essa, com essa mensagem, que a gente encerra o programa, né, Martin?

Martin: Absolutamente.

Juliana: Eu acho que vou aqui pegar Fabiano, que conheci ele lá encerrando nosso projeto que a gente tinha lá na na Fundação Dom Cabral. Riqueza é muito mais do que quando a gente tem no banco, é muito mais do que isso, então não temos motivo para ter vergonha, temos que ter inteligência e esse feminino, vou falar assim, para poder fazer uma mudança.

Martin: Certamente.

Juliana: Bom, nós temos agora, Fabiano, no programa aqui, os nossos aprendizados. Então, vamos falar alguns, e depois se você quiser completar, você fica à vontade para poder encerrar, e depois a gente vai para as dicas. Então, Martin, quais são os nossos aprendizados?

Martin: Você acabou de falar um que é muito importante. A riqueza, como tal, não é um motivo de vergonha, de vergonha, não tem motivo de vergonha, e é importante falar sobre dinheiro, ou patrimônio, dentro das famílias com os filhos. Deixar de ser um tema tabu, desmitificar, e como comentava certamente Fabiano, com o tema de um legado. Porque é importante compartilhar a origem do dinheiro, fruto de trabalho e sacrifício, e que o legado não é somente a parte patrimonial e material, senão que você também é parte do legado. E passar os valores e conhecer histórias e sentir-se orgulhoso disso. E certamente a educação financeira é um tema muito importante para ter em conta e, bom, vou deixar a você comentar mais outros aprendizados desta superfala que temos.

Juliana: Vou começar a completar a nossa última, porque a gente também não pode deixar de considerar que existe a riqueza financeira. Então temos que ter responsabilidade para poder herdar e receber e dar continuidade. Então a etapa financeira é fundamental para todos os membros da família.

A gente não pode deixar que o dinheiro defina quem somos. Quem é o dinheiro para poder caracterizar a nossa personalidade, a nossa índole, etc? Os herdeiros… É fundamental que os membros das novas gerações encontrem caminhos e oportunidades para descobrir a sua própria vocação, sua habilidade, suas competências e propósito. Nós todos, seres humanos, temos que ter a nossa motivação para acordar todo dia de manhã.

Acho que o outro aprendizado que falamos aqui, agora, é que a filantropia, os trabalhos sociais, eles são caminhos extremamente válidos, de uma forma para você contribuir para essa sociedade. Não é por uma cobrança social, mas é por uma razão genuína de desejo de realizar, e acho que é isso. Algo mais Fabiano?

Fabiano : É, eu acho que eu diria isso, acho que é esse falar, esse comunicar como vocês colocaram, ele está muito atrás dessa questão da história e da responsabilidade. Eu queria falar mais dos deveres do que dos direitos, que eu acho que essa é uma grande comunicação, que ajuda então com que o herdeiro ele se sinta orgulhoso de ser herdeiro, mas lembrando que o papel de ser herdeiro traz junto a responsabilidade de tudo aquilo que ele recebe. E para que a gente não fique só com um lado do copo, achando que então eu só tenho direitos. Eu acho que essa questão de lembrar que tem deveres, que conecta com aquela questão de que estamos a serviço, quanto mais potencialidade, poder, o que chamamos estereotipadamente de privilégios que a gente tem, mais condições tem para servir, para fazer o outro, e é esse caminho de que a gente está indo, — para quem pode, já —, ir do individual para o coletivo, que é um tanto de nosso caminho. Um grande convite do ano passado é o olhar para fora, para o outro, e não mais ficar olhando só para mim.

E quando eu já passei da linha de dignidade, quando eu já não preciso mais só ficar preocupado comigo, eu não tenho só o direito e a possibilidade, mas eu começo a ter de um certo modo essa obrigação de colocar o meu sacro ofício, aquele meu trabalho — sacro no sentido de importante, não no ponto religioso — a serviço do outro, para entender cada um ao que é que veio. Um dia muito importante é o dia em que a gente nasceu, e o outro é quando a gente descobriu para que é que a gente nasceu. Espero que cada um deles possa descobrir isso. Com certeza não é para gerenciar dinheiro, nem para pagar boletos, nem para transmitir para a próxima geração, é muito mais muito mais bonito do que isso. Muito, mais, muito lindo, muito, muito mais.

Juliana: Muito mais.

Martin: Agora, temos para terminar o episódio, uma questão que as pessoas gostam muito, os ouvintes, as dicas do episódio, Juliana.

Juliana: Eu tenho uma dica que esta semana, preparando esse episódio, eu descobri que ele voltou a estar disponível no Youtube, porque durante muito tempo ele estava proibido e a gente não tinha acessado . Mas com certeza você conhece, Fabiano, que é aquele documentário “Nascidos em berço de ouro”, que foi feito pelo Jamie Johnson, um dos herdeiros da Johnson&Johnson, e ele entrevistou vários jovens que, assim como ele, nasceram com mais dinheiro do que eles vão poder gastar durante toda a vida deles. E com isso ele traça um panorama do que é que significa nascer num berço de ouro. É um documentário impactante. Todas as vezes que eu assisto, eu confesso que eu fico verdadeiramente mexida, e eu acho que vale muito a pena ver para poder refletir sobre o que é que significa essa riqueza no mundo de hoje. Esse documentário está disponível no Youtube, encontrei ele disponível exatamente ontem.

Martin: E, Fabiano, você comentou de dois filmes, podemos lembrar um pouquinho os títulos deles.

Fabiano : Eu me lembro de dois filmes, como você comentou, Martin. Um é “A que horas ela volta? “, que é um filme brasileiro com a Regina Casé, que ilustra um tanto a figura de um jovem que vai perdendo um pouco essa percepção da responsabilidade de viver, no caso, dos estudos para passar no vestibular, e um outro, que é um filme argentino, chamado “Relatos Selvagens”, que conta cinco histórias, ali, ou seis, e uma dessas histórias é a de um jovem, então, que ele passa por uma cena como essa, mas eu queria trazer aqui a figura do adulto, que o adulto pai tenta dizer, de alguma maneira, com advogado, etc e tal, que isso será resolvido com dinheiro. Mas, então, no desenrolar, eu convido o nosso ouvinte a assistir.

Juliana: Bom, eu tenho outras dicas. Mencionamos, durante este programa, dois dos nossos episódios. Então, vou deixar como dicas. Para você que ainda não assistiu, o episódio número quatro, “Te amo, mas…”, que fala um pouco sobre os pactos pré-nupciais, a necessidade da proteção, e também o episódio número treze, que fala sobre filantropia. Acho que foi um papo maravilhoso e que vale a pena ser revisto, ou visto, para você que ainda não assistiu.

Martin: Muito bom, Juliana, certamente episódios muito, muito, legais, e relacionadas a esse tema.

Juliana: Isso aí, Fabiano, muito obrigada pela sua participação. Uma delícia estar aqui com você novamente e espero que esteja de volta em qualquer hora…, qualquer uma outra…, qualquer outro momento. Martin, muito obrigada mais uma vez, espero que esteja tudo bem em Miami.

Martin: Super.

Juliana: Nos vemos no próximo episódio de “Papo de Família Empresária”. Siga o “Papo de Família Empresária” e “Papinho com Família Empresária” nas redes sociais e compartilhe conosco sua história. Quem sabe, não é assunto do nosso próximo episódio?

Apresentação de Juliana Costa Gonçalves e Martin Salas. Edição de Rodrigo James.

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